sexta-feira, 12 de maio de 2017

TÚMULOS ACESOS

 





Ressoam trombetas nos cemitérios da China ---
confundidos vozes, incensos e flâmulas brancas, vermelhas de sangue
com suas gotas inóspitas
refletidas no espelho cruel da agonia e desfilando no silêncio póstumo da liberdade,
a alma bélica da Pátria impura ---
que reclama por seus filhos indignos que alimentam
apenas os cemitérios da China!

Ressoam trombetas nos cemitérios da China
expelindo corações sublimes de guerreiros sem armas
em gritos roucos amordaçados por fuzis e celas
e alvejados por tiros pagos com o preço da infâmia,
coberta por símbolos fálicos de eterno pranto
que desnudam as vestes triunfais que emolduram 
apenas os cemitérios da China!

Ressoam trombetas nos cemitérios da China,
amaldiçoando os sonhos etéreos da democracia abortada
que tenta com a palidez das sombras
soterrar as esperanças seculares...
E deixando escapar incólume uma fresta de força misteriosa
Resultado de imagem para cemiterios da chinapor entre os dedos que coagulam suas cicatrizes
e esperam outra vez a hora fatídica
prontos a despir o luto da paz
rasgando para sempre o véu da tirania,
ainda que sobrevivam 
apenas os cemitérios da China!

JOSÉ AGNALDO FOGAÇA
 

METÁFORAS


As matas, as florestas desvirginadas e os bosques
haviam perdido os seus fulgores!
Há muito tempo que o homem tinha arrancado de suas entranhas
o brilho agreste do verde e o cantar sibilino das folhas...
E a natureza, essa vã e misteriosa mãe, transformara-se em habitante de ficção.

Eu, humanoide jardineiro deste precioso jardim,
o único que ainda resta, choro por todos os nossos pecados
porque faço parte dessa praga, ambiciosa e opressora!

Meus soluços se confundem com o vegetar supremo das flores...
O silêncio é póstumo e as rosas possuídas não ornamentam mais qualquer vaso,
nem os seus próprios vasos sanguíneos!
A fotossíntese se desgarrou e deixou de ser um fenômeno...
Há uma cor ocre no ar!
Parece mesmo que alguém está morrendo!
Seriam as sempre - vivas?
Num canto, mirradas, as madressilvas  rezam...

E quando da minha mão a última gota de decência cai nos olhos do alecrim,
e vejo os copos -de -leite afogarem-se em lágrimas, compreendo tudo:
- Nada mais me resta!
Nem mesmo uma dama -da- noite para cobrir, com seu véu de crisálidas fluorescentes,
o meu túmulo triste... sem cravos na lapela!

JOSÉ AGNALDO FOGAÇA  
 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

" TOMBO"

  Imagem relacionada

Em cada porta fica escancarada uma estrela.
Eu brinco com as estrelas
rangendo as portas;
elas me dizem tudo...
Mas dentre todas, a que mais me importa
é aquela que me transporta
fazendo-me crer que estou voando
até quebrar todas as minhas asas;
e a cair feito um burro-que-nem-uma-porta,
mas por dentro livre e feliz,
porque catei no chão a minha alma morta!

 JOSÉ AGNALDO FOGAÇA

ASA CAETANA


Fito a penumbra do teu corpo atlético no avesso
tentando ser Desi Arnaz em sonhos hollywoodianos
sem nenhum complexo de mãe parda 
fazendo com seu sorriso mago um pouco de Princesa Narda.

Olho-te na intolerância dos gestos brutais
nos seus ataques hipocondríacos,
no teu sorriso que nasceu para encantar serpentes
perdido entre trevas do paraíso
tateando o frescor da luz incandescente.

Planejo então tua morte, sentindo a fome horrível da Etiópia...
e, fingindo entre lascívias e tecidos de organdi,
ser um trovador arrebatando a serenata!
E esquecendo por um breve instante a pauta infeliz
ao possuir em espermas caros a alma livre de uma meretriz!

Ouço tua voz meio rouca de menina-moça,
louca, que perdeu a virgindade
no estranho acidente de fazer amor!
E que sucumbe rindo estéril,
estraçalhada pela própria dor...

Suo frio, depois estuporado no meu instinto matemático,
quando noto que alguma coisa te acontece...
excitando teu lenço de voal quase a voar rumo ao orgasmo... 
e o meu medo é tão algoz que não percebo na mesma hora
o Brasil no chão, de quatro, bebendo Coca-Cola!

Aí quero me lembrar das rimas de versos do amanhã
catados no meio de lixos atômicos
e martirizados no alto de alicerces desmoronados!
E teu rosto me chega estranho, desenhado nos muros!
Caetano... Velô como colibri
cantando mudo um "Sampa" dilacerado! 

JOSÉ AGNALDO FOGAÇA

sábado, 15 de abril de 2017

"VISITA"

(ao meu grande amigo Carlos Alberto Guimarães Rosa, cidadão do mundo

Te vejo sempre, invisivelmente,
no meio da saudade...
E nunca consigo te ver como o menino que um dia abracei
pelas ruas pequeninas
desta nossa Aldeia!

Te vejo homem, agigantando-se no meio da saudade...
Com louros na cabeça...
voltando para nossa Aldeia!

Invisivelmente, passeando pelas nossas ruas pequeninas
e me abraçando como se fosse eu o menino,
caducando... no meio da Saudade!

JOSÉ AGNALDO FOGAÇA
 

"CHICO MENDES"


Gritos alados
levantando os braços enferrujados
no meio de arbustos sombrios
e sentindo o frio na espinha dorsal!
Pés de barbas de bode enegrecidas
dançando no ritmo arguto do fogo canibal!

Gritos alados
espreitando a floresta indefesa
e aguardando, resfolegados, a sombra de um assobio -
assistindo sequoias centenárias gritando ao vento 
e beijando o chão cheirando a cinzas...

Gritos alados
chorando a saudade crucial dos passarinhos
erguendo as casinhas de joão-de-barro
no balançar frêmito dos cataventos angustiados!

Gritos alados
esvaindo o seu sangue nas motoserras esquivas
e deixando seus pedaços em serras elétricas pontiagudas!

Gritos alados
perdendo-se nos rios secos e nas margens empoeiradas 
ainda tentando encontrar um mar de olhos conscientes!

Gritos alados
navegando em folhas de flores secas
e chegando ao topo do mundo, incrédulos,
onde ecoam tristemente, em vão
pela surdez inválida dos homens - abutres da Terra!

JOSÉ AGNALDO FOGAÇA

OBS: Poema construído por ocasião da morte de Chico Mendes (1988)